Terça-feira, Fevereiro 24, 2009

Índice

Textos do autor publicados

Outro Dicionário de Língua Portuguesa

A Menina e a Areia (ficção)

O Xeque Verde (ficção)

Cancioneiro do Absurdo (poesia; edição revista)

Poemas de Cal (poesia; edição revista)

Apresentação do Blogue
Outro Dicionário de Língua Portuguesa


A


A, para abrir, abraçar, amar, abarcar, aborrecer, abocanhar um naco de vida, A, mas são verdes, esse A que não consegue dizer o que devia, desculpa, A, admirado, A, exclamado, A, declamado, A, de silêncio, de fúria, de enlevo, A, para organizar o alfabeto e ordenar os seres e as coisas, A, pois, outro A malandro, que não quer dizer mais do que diz, fugidio, A, som aberto e redondo, A, letra séria e assertiva, A, muitos Às, riso, espirro, a a a, pequenos às, A, claro, vogal.


B

Basta amigos, basta.


Basta de pasta dos dentes no recheio do bolo.

Basta de piolhos nos sobreolhos.


Basta que nos digam basta.

Basta que nos digam que é bastante.


Basta de óbvios.

Basta de óbitos.


Basta, que a vida é vasta e podemos crescer maiores.

[7 Julho 2009]

Domingo, Junho 01, 2008

Textos do autor publicados

Na Rede

A Rua, poemas «1» e «2»; Metropolitano, poemas «1» e «2»; «Call Center», na revista-blogue Inefável, # 2 (Julho - Dezembro 2007), em http://revistainefavel.weblog.com.pt/
«Onírica Camoniana»; «Fingerbib»; «longo o brilho pelágico do rio ...»; «Os Jardins de Generalife», (poesia) na revista-blogue Inefável, # 1 (Janeiro - Junho 2007), em http://revistainefavel.weblog.com.pt/
«Os Dias»; «Ignorância»; «Recordação»; «Sapos (Revisto)», (tradução de poemas de Philip Larkin), na revista-blogue Inefável, # 1 (Janeiro - Junho 2007), em http://revistainefavel.weblog.com.pt/
Poemas de Cal ([2002] 2004), e-book, em http://www.elefante-editores.net/, em Novidades.


Em Livro

Poemas «Nazaré» e «Sítio», na antologia Canto de Mar (2005), Colecção Bico da Memória, Biblioteca Municipal da Nazaré.
Cancioneiro do Absurdo (1999), Lisboa, Edições Tema.


Em Revista

Poemas Alguns dias (1 a 4); A Rua (1 e 3); Metropolitano (1); e Call Center, na revista DiVersos - Poesia e Tradução, nº 15 (2009), pag. 80 ss.

Segunda-feira, Maio 19, 2008

A Menina e a Areia
*
À Patrícia
*
Era uma vez uma menina que foi à praia no último dia de aulas com os colegas e as professoras. Lembrem-se meninos e meninas, isto não é só brincadeira, viemos numa visita de estudo… Disse a professora mais velha, enquanto cravavam os chapéus-de-sol e estendiam as toalhas no regaço de uma duna cabeluda. Antes de nos irmos embora, quero que me dêem um exemplo de algo que só poderemos encontrar nas praias, está combinado? Siimm! Exclamaram todos num coro desafinado e galhofeiro de caretas traquinas. E então foi um vê se te avias, a desencantar das mochilas as bolas, as bóias e as raquetes. Mas que reboliço maior se armou então! Chuta daqui, salta dacolá, pula ali, corre para cá, não ficou ninguém aborrecido nem sentado. Até mesmo as professoras, que nunca tinham sido vistas em tais propósitos, nem lhes ouvidas tais risadas, se entretiveram a jogar com as raquetes! A certa altura, porém, sem que se tivessem apercebido, a menina afastou-se a correr, beicito franzido, balde amarelo a baloiçar, decidida a não voltar – e só parou muito depois de ter deixado de os ouvir. O mar atirava-se, despeitado, lá adiante, às rochas de um cabo, embora suspirasse calmo pela praia, a jogar à apanhada com uns passaritos que debicando andavam tic tic tic muito depressa, nas suas pernitas curtas, sempre a fugirem-lhe dos avanços lambões. Já ela catava pedritas, conchas e búzios, quase esquecida do seu choro, quando, debaixo dos lençóis de espuma viu aparecer, de areia molhada, uma carantonha enorme e nariguda que sorriu meiga e quis saber:

Estava eu em um sono sossegadita entre as solhas
Quando senti uma comichão nos meus pés,
Estremunhada perguntei às estrelas-do-mar:
Que cócegas são estas?
Serão os ouriços-do-mar a rir?
Estão dois caranguejos a brigar?
Não,
responderam-me elas, Nós também sentimos,
É uma menina a pingar do queixito
Água salgada que nunca provámos...
Ali, na ponta da tua cama, vês?
Vai lá e pergunta-lhe como se chama
.

A menina deteve os fios de lágrimas na represa de um sorriso breve e redondo como as bolhas irisadas da escuma, e perguntou delicada, de mãos cheias do seu tesouro, Como é que te chamas?

Eu sou areia e durmo pelas praias
Entre as estrelas-do-mar e as do céu.
Os peixes são meus amigos
E as ondas ensinaram-me todas as línguas,
As das baleias, as dos homens e as dos golfinhos.
Fazes uma ideia do que as focas dizem no seu escarcéu?
Mas que digo eu!? Se nunca tas apresentaram!

Já, já! Exclamou a menina, arrebitada. Fui vê-las a um aquário grande onde elas vivem... São tão giras... E sabia que elas são pequeninas e azuis? A areia ia a sorrir embevecida, mas logo sentiu, súbita e intempestiva, outra comichão, a a a a a ATTCCHHIIMM!!! Espirrou alto e espaventosa, fazendo estremecer o chão e saltar uma lata vazia. A menina riu tanto que as gaivotas olharam cá para baixo e ao seu riso juntaram o delas, O que foi?

Foi aquela lata de refrigerante,
Fez-me cócegas no nariz...
Pelas pulgas-do-mar
Que estão sempre a saltar!
A todo o instante
Tropeço em coisas que cá deixam
– E às vezes é por um triz
Que não me magoo… –,
São paus de gelado, pacotes de sumo
Garrafas, tampas e pontas de cigarro,
Malsinada praia, léguas de desarrumo,
Quando é que te limpam!

A carantonha de areia franziu o sobrolho de conchas escuras e disse à menina, muito séria e serena:

Vou-te mostrar o que acontece
Às praias, às águas e às ruas
Quando alguém se esquece
De que há nelas quem esteja a morar.

Vês ali aqueles pais a dar o almoço
Aos seus meninos traquinas?
Enterraram na areia o saco plástico
Agora mesmo muito mal
– Age assim quem não o sabe trágico:
Pois o saco flutuará pelo oceano,
Invisível como o vidro ou forte como o aço,
A caçar a gaivota curiosa ou o tímido peixe-lua...

Pensaram eles no dano tal
Que é deixar na areia ou no chão da rua
Aquilo que é do caixote do lixo?
Será que o saco vai voar
Preso nos remoinhos das esquinas?
Será que o saco vai vogar
De boca aberta ileso pelas correntes?
Quem procura as respostas
Para estes serás?

E se fossem só os sacos plásticos!
Qual quê – já ouço os ais
– É tudo o que não prestar mais!
Ferro-velho, combustível, baterias,
Esgotos, entulho e frascos!
É de pasmar e terrível
Mas isto acontece todos os dias
Eu gostava de saber porquê...

Tristes anémonas coloridas...
E as graciosas medusas translúcidas,
E a filigrana das gorgónias?

É disto que fogem as lagostas em longas marchas?

Nem os paguros vermelhuscos
Nem os pólipos, nem os moluscos
Os podem tomar por casa ou aba
Sem a sua vida arriscar!

A praia é um debrum de ouro em lavores,
O fundo do mar é a jóia de todas as cores.

Eu gostava que te lembrasses,
Pelo menos tu doce menina,
De que aquilo que se perde na água sem destino
Tem sina de assassino...

A areia estava contente agora, já não havia sinal da tristeza que a menina trazia, e os seus olhos atentos eram como dois marezinhos refulgindo ao deitar do sol:

Que sorriso tão bonito
Sorriem as tuas meninas
E os teus dentinhos
São brancas pedras pequeninas.
Diz-me porque choravas tu,
Quem te magoou?
Foram aqueles meninos além?

E apontou para longe, para onde os seus colegas estavam a brincar, minúsculos como letras irrequietas. A menina ficou queda, muda e calada, e tão pronta como desapareceu tomou-a uma expressão magoada. Ao vê-la assim de lábios murchos, a areia disse estas palavras apertando-lhe meigamente o narizito:

A esta hora já te procuram aflitas
As tuas professoras e os teus colegas...
Vamos voltar, eu acompanho-te,
E pelo caminho vais-me contar
Certinho o que te fizeram esses patetas...

A menina recobrou o ânimo soltando um sorriso qual balão cor-de-rosa, e logo logo acudiu à pergunta que já comichão lhe fazia, Por que é que falas a cantar? A areia soltou tal gargalhada que as conchas e as pedras lhe chocalharam pelo corpo brilhante, e todas as gaivotas em redor levantaram voo assustadas e resmungando.

Ora bem, primeiro tenho que te explicar
Que são os nossos lábios que se movem
E os nossos braços e pernas que se mexem
Mas não somos nós que estamos a falar
Nem saberíamos nós como caminhar:
É quem escreve estas palavras,
Como no verão o canto que se ouve
Não é o do campo mas o das cigarras.

Vejo espanto nos teus sobrolhos
E os teus olhos são um espelho de dúvidas!

Mas é como te digo e afirmo
Somos nós parte da imaginação,
Que é um mundo como só tu o vês
Feito das tuas ideias com fantasia.
Não me crês?
Quem mergulhar neste oceano
Não lhe encontrará fundo,
Quem esperar pela noite
Só conhecerá o dia,
E quem me beliscar, ui!
Não me causará qualquer dano...

A menina riu da sua travessura e da graça que achava àquela carantonha nariguda, desengonçada criatura.

E se em verso converso
Não é porque eu tenha lido
Qualquer um dos poetas celebrados
– O porquê di-lo o autor:
Por ser divertido e útil
Ouvir como que uma canção
Ao ler ou a quem lê
Brincando
E aprendendo
Com os sons
Uns aos outros abraçados.

Ao aperceber-se que a menina se distraíra a meio deste colóquio – e que se dissipara a nuvem carregada de onde se tinham precipitado as suas lagrimazitas –, a areia resolveu deslindar de uma vez por todas a razão da sua fuga:

Daqui a pouco chegamos
E depois vais-te embora;
Sei que fiz uma amiguinha
Mas encontrei um mistério
- E os mistérios são como as moscas:
Só nos largam quando lhes deitamos a mão!
Porque é que estavas tristinha
De narizito sério
E olhito de quem chora?

Foi o Tiago e o João... – Disse a menina, fitando os olhos da areia – duas conchas de ostra brilhantes como madrepérola. Estão sempre a gozar com o meu nome, dizem que eu sou mentirosa... E qual é o teu nome? Perguntou a areia, milhões de grãos mais curiosa do que antes. Ao ouvirem estas sílabas, até as amêijoas, as navalhas e as conquilhas, que por ali viviam enterradas e escondidas, interromperam atentas os seus afazeres borbulhantes. Eu chamo-me Clarinha... A areia esboçou um sorriso – que foi de compreensivo a malandro num bater de onda – e deu a mão à menina:

Vamos lá ver quem são esses espertalhões,
Há uma lição que eles ainda não aprenderam...
Aquela do choco–pataroco e dos peixes folgazões,
O que aconteceu quando estes se conheceram...

Quem é o choco–pataroco? Quis saber a menina. E os peixes foleirões? A areia, admirada com as perguntas, atirou ao ar outra das suas gargalhadas fortes – tão fortes, diziam as gaivotas e os caranguejos, que nem mesmo as ventanias rijas das tempestades as conseguiam agarrar e as levar com elas, por maiores que fossem os seus solfejos!

Foleirões... Bem o dizes!
Vou contar-te então
Esta famosa confusão de narizes
Para que compreendas o que vai acontecer...

Era uma vez uns peixes traquinas
Que só usavam as escamas
As guelras e as barbatanas
Para aborrecer quem no fundo do mar vivia.
Ora um dia, ia a passar um choco
– Gentil e sossegado,
Por todos tomado como pataroco –,
Quando, a uma das esquinas
De um lindo coral vermelho,
Lhe apareceram estes folgazões
Que logo logo o cercaram:
Olha, olha,
Parece-me que hoje somos nós os caçadores!
– Disse um, trocista, e depois outro –
De que cor és tu afinal?
Vá, então!? Muda lá essas tuas cores!
– E riam, e riam, os malandros, a bom rir,
Até que a voz do choco a irritada soou:
Eu mudo a minha cor conforme estou
Ou para me adaptar aonde esteja,
Assim como agora me visto de furioso
Daqui a pouco tinjo-me de guloso...

E sem avisar – afim de evitar peleja –
Lançou-lhes sua tinta e disse antes de partir:
Este é o proveito que têm
Aqueles que mal feito fazem
Das cores alheias peçonha e vergonha…

E assim orgulhoso se foi
Vingado o choco pouco atarantado
Da desfeita havida e bem paga…

Mas o que é que vai acontecer? Perguntou Clara, mais confusa do que curiosa. Ao certo, bem certo, não sei, respondeu a areia ditosa, mas sei quem o pode dizer, e começou a chamar por mim, assim como quem não quer gritar. Então, ao ouvi-la, como se fosse um postigo abri o sol que brilhava maior do que o céu, assomei a cabeça redonda calva, espreitei e disse:

– Que grandes tolos e mal-educados são os teus colegas Clarinha! Mas esquece o que lhes ouviste: hoje mesmo eles vão aprender, como tu já aprendeste, que o mundo usa todas as cores para pintar os seres e as coisas, pois em só havendo uma é como se não houvesse nenhuma.
– E o que é que vais fazer? Perguntou a menina, franzindo as sobrancelhas em dois pontos de interrogação.
– Vou-te responder com uma adivinha: qual é a coisa qual é ela, transparente como o ar, quebradiça como uma batata frita e brilhante como o mar?
E precisamente neste passo da estória, vinha de mãos na cabeça e lacrimosa, a correr na nossa direcção, a professora Rosa:
– Ah Clarinha, aonde tens andado?! Estava tudo ralado à tua procura! Ralhou a professora abraçando-a, tão aflita que os seus olhos só foram capazes de ver a menina. Apanhei estas conchas todas... Mostrou-lhe Clara, revolvendo o seu tesouro com o dedito indicador. Quando a professora lhe seguiu o gesto, viu uma sombra enorme a seu lado e um corpo gigantesco de areia sorrindo-lhe imóvel, Santo Deus! Gritou, quase caindo para trás, O que é isto!? Perguntou, esganiçada, a professora Rosa assustada.

Eu sou areia e durmo pelas praias
Entre as estrelas-do-mar e as do céu.
Os peixes são meus amigos
E as ondas ensinaram-me todas as línguas,
As das baleias, as dos homens e as dos golfinhos.

Nasço nas serras e nas montanhas
Cresço nos rios que me ensinaram
A grandeza de cada ínfimo grão
A beleza de cada seixo redondo e polido,
Pois todos juntos fazem maravilhas
Lezírias praias lagoas e ilhas
Que braços cascos e ferro labutaram
Onde homens, mulheres e estrelas caíram ao chão.

- Areia?... Disse Rosa embasbacada, agora já menos assustada.
- Sim, sim, é a areia, professora, e ensinou-me muitas coisas como a senhora...

O que eu ensinei à Clara
Qualquer miúdo ou graúdo
Poderá compreender,
Que tudo o que deitamos fora
Parece que desaparece
Mas é só ilusão:
Mesmo que o mar o engula
Que o vento o varra
Que o pontapé o arrede
Que o rio o traga à barra,
Sem a pá que o recolha
Sem a mão que o agarre
Nem o caixote que o receba,
O lixo a algum lado chegará
Sem ter sido convidado.

E mais não adianto
Nem por agora nem por enquanto,
Pois a surpresa só o é porque se demora.

E acrescentou a areia, despedindo-se:

Clara, vai ter com os teus colegas
É hora de eu me ir embora.
Já sabes onde eu vivo
E sempre que tiveres vontade ou motivo
Chegas à praia, a qualquer praia,
E chamas por mim, sim?

Sim, respondeu Clara um pouco triste, e num abrir e fechar das suas pálpebras, a areia deitou-se novamente, desaparecendo em um reflexo prateado. A professora Rosa, ainda incrédula e assarapantada, pegou na mão de Clara e exclamou alto, Cruzes credo, se eu alguma vez poderei acreditar naquilo que os meus olhos viram! A areia da praia tem vida, anda e até dá lições! Ó Clarinha, conta-me lá bem contadinho o que aconteceu... E seguiram pela areia revolvida de passos a caminho do arraial da escola, já o sol avermelhava o céu alaranjado, quase a cair no mar rebrilhante. Quando chegaram, havia aflição e alarido à volta de Tiago e de João. Rosa! Rosa! Gritou a professora Madalena, de braços no ar. Valha-me Deus, o que foi agora!? Suspirou Rosa, esfalfada. Vem cá Rosa, depressa, o João e o Tiago Rosa... Os dois meninos miravam-se e remiravam-se, os pés, as pernas, o tronco, os braços e as mãos, mais espantados do que assustados, ante a admiração estonteada e inquieta dos colegas e das professoras. Os mesmos pés, pernas, tronco, braços e mãos, assim como quem diz o corpo todo, estavam a tornar-se, lentamente, translúcidos como vidro... As pestanas da professora Rosa abriram-se como uma flor à luz do sol, e tocando num deles com cuidado, sentiu que a pele mantinha-se morna e macia como saudável, apesar de na aparência ter adquirido a qualidade diáfana. Então Clara, assustada com o sucedido, correu até à beira-mar e começou a chamar pela areia, sem que esta parecesse estar a ouvi-la. Uma gaivota que por ali voava sobre a rebentação pousou graciosa e resoluta junto da menina e disse-lhe:

- Olá! Tu és a Clara, não és?
- Sim... Respondeu-lhe a menina, atenta a cada pena sedosa da alva ave.
- Eu sou a Patrícia.
- Patrícia?
- Sim, é esse o meu nome. Porquê tanto espanto?
- As gaivotas têm nomes?
- E porque não? Aqui neste lugar, que não tem tempo nem espaço, onde é possível acontecer tudo o que é possível acontecer numa folha em branco, as gaivotas podem ter um nome como aqueles que dão aos seres humanos quando nascem. E se quiseres Clarinha, até tu podes receber um novo nome, um nome de gaivota! Mas voltemos ao nosso assunto... Ouvi-te há pouco a conversar com a areia, estás à procura dela?
- Estou... É que os meus colegas...
- Eu estou a par de tudo Clara, assisti de perto à vossa conversa. A areia está em outra parte do mundo.
- A fazer o quê?
- Não sei, mas imagino que a secar as lágrimas em outro rosto... Ou a tropeçar nos banhistas de Agosto... Ou a jantar com os peixes do oceano profundo!
Sorriram ambas porque era assim que a areia falava, sem deixar perder uma rima a qualquer palavra. E depois, solene e sem delongas, disse-lhe a gaivota:
- Quanto aos teus colegas, eu dou por certo e por conselho esperarem sem aflição que eles voltem a ser como eram.
- Quando é que eles vão voltar a ser como eram?
- Estes encantamentos duram só um susto... Vais ver, quando vocês chegarem a casa o encantamento já terá passado... Mas os teus colegas nunca mais vão esquecê-lo, e talvez venham a aprender alguma lição com este acontecimento espantoso. Quem sabe, um dia, ao lerem esta estória, ficarão a saber quem vive na areia e no mar, e que existem muitas cores e não só uma!
Do cume da duna, de mão em pala sobre o cenho, ouviu-se a voz morna e cansada da professora Rosa que a chamava para o regresso. Clara sorriu à gaivota e despediu-se acenando com a sua mãozita:
- Adeus Patrícia!
- Adeus Clara! Cá estaremos quando voltares!

Quarta-feira, Setembro 27, 2006

O Xeque Verde
1

Luísa vai sentada à janela, num dos lugares traseiros do autocarro que sobe a avenida em esforço - um rasto evanescente de monóxido de carbono. Ocupa-a uma mensagem ao telemóvel cor de prata, Olá. Vou agora à aula gabinete c o xeque verde, tou nervosa, preciso dum 16! Dp ligo beijos fofa L, passam-lhe despercebidas as acácias floridas, a limpidez aguda do céu, a sem parança nos passeios. O autocarro aproxima-se da paragem. Quando ela se levanta para sair, olhares apreciam-lhe o viço e narizes sentem-lhe o odor fresco dos cabelos lavados.

2

Luísa chega atrasada ao instituto, já passou das dezassete um quarto de hora. Mas não leva verdadeira pressa, os professores fazem pausas entre as aulas de gabinete – é o cigarro e o café, a traça do estômago, as conversas de departamento, o interesse inesgotável dos alunos empenhados. O professor está ao balcão do bar. Luísa cumprimenta-o, o corpo fala-lhe timidamente. O sorriso dele é cortês, Olá Luísa. Dê-me cinco minutos, pede-lhe ele, a chávena do café suspensa a meio caminho entre a boca e o balcão. Ela assente e afasta-se para a porta do pátio, que é uma cortina de luz; senta-se num banco sem espaldar, debaixo dos placares envidraçados onde são afixados os resultados das avaliações, e tira da mochila o maço de cigarros prateado – o aviso anti-tabágico negreja como um obituário de jornal.

3

A luz crua assenta-lhe bem na pele. Já deve ter ido à praia. Ele apaga o cigarro num cinzeiro de vidro e apressa-se para ela jovial, Então, está pronta? Prontíssima, os dentes certos alvorescem-lhe, desviando os seus dos olhos dele, que a fixam castanhos mel e intensos. Entram no gabinete ligeiros e silenciosos, tomam lugar junto à janela. Ele tira uma pasta de dentro da mala de cabedal, abre-a, procura algo na desordem de fotocópias, ofícios, livros. Ela aguarda, hesita-lhe a atenção entre os gestos dele e o brilho do pátio. Os gabinetes do instituto são rectângulos exíguos de dimensões idênticas, contíguos, afastados das salas de aula. O instituto é um edifício quadrado de três pisos, construído em ferro, cimento e vidro, sobre um desnível da colina. No interior, o sobredito pátio, um anfiteatro relvado, chão de calçada, árvores de porte. Dentro do gabinete foram colocadas duas secretárias, uma diante da outra. As paredes têm um forro de livros, dispostos sem ordem aparente em estantes de madeira; há cartazes de colóquios, prateleiras, secretárias e computadores personalizados com objectos pessoais: pequenas esculturas em barro e em pau-preto, fotografias de familiares, de amigos, paisagens, postais, desenhos escolares de uma criança, traços coloridos ainda incertos: o sol verde eriçado, casas tortas de janelinhas amarelas, gente sorrindo em muitas cores acenando, automóveis vermelhos, autocarros alaranjados, nuvens de feltro azul claras. Ele começa a ler as suas anotações ao ensaio – os gestos contidos e suaves das mãos largas e delgadas, os maneios da cabeça e os trejeitos da boca, acompanham o discurso numa coreografia serena: O texto é bastante fluído, as frases estão geralmente bem construídas, as ideias são expostas de uma forma clara e concisa, articulada, embora a Luísa pudesse recorrer de mais exemplos que ilustrassem os argumentos (sublinha). Por fim, demonstra o conhecimento de um vocabulário alargado e aplica-o devidamente. (breve pausa, sorriem) E agora gostaria de discutir consigo, de uma forma mais detida, alguns pontos menos claros que assinalei no seu texto.

4

Luísa defende os seus argumentos, levanta dúvidas, reconhece imprecisões e incoerências. O professor, atento e exigente, confirma gradualmente a nota que pensou atribuir ao ensaio; não só a aluna é inteligente e empenhada, como consegue exprimir estas qualidades; raciocínio escrito e oral pertinentes, e muito bem articulados. A aula está quase a terminar. Luísa, felizcitada, expressa-se vivaz, ri com as anedotas de profissão que ele ilustra com entusiasmo, fumam descontraidamente. Ele tem uma polaróide colada à moldura do écran do computador: os rostos dele e de uma mulher brilham em sorridências num fundo negro. Fotografia de casal. Deve ser a namoradinha. Ou a mulher. Ele interpreta-lhe a mímica de quem está à vontade, de quem adivinha um bom resultado. Os cabelos dela são cor de amêndoa, muito curtos, quase da tonalidade dos olhos. A tee-shirt morre suspensa ao umbigo escuro. Terá ela uns joelhos bonitos?

5

Quando o professor a informa do resultado da avaliação, Luísa sente uma vertigem agradável, tem vontade de saltar da cadeira e enterrar as mãos nos cabelos cor de cinza do professor. Então Luísa, o que vai fazer? Comemorar com os seus amigos? Ele sorri dois sorrisos. Outra vertigem, visceral, segundos: polaróide estragada, branca e aquosa como leite. Ele fita-a sem espanto enquanto ela se recompõe, incapaz de palavras. Levanta-se calmamente, espreita o corredor, tranca a porta e cerra os estores.
Lisboa # Setembro 2006 / Maio 2007

Sexta-feira, Janeiro 21, 2005



Apresenta-se aqui a versão actualizada do livro de debutante, publicado em 1999:



CANCIONEIRO DO ABSURDO


Edição Revista



Ao Alberto Augusto Miranda
Ao Ricardo Ferreira de Almeida


*


Ópera de Benavente


Ao largo da edilidade
de Benavente,
não ando para trás
nem para a frente.

Até os dóceis cães me ladraram hoje
quando cheguei à estação
o combóio tinha partido,
perdi o barco
saltei do avião,
o sol escondeu-se de mim
choveu sem fim.

As moscas pairam no ar
da sala do terminal,
a cachopita salta sorridente
para o colo da avó,
negra de luto,
negra de dó,
pelo marido que era só
bruto.

Ao largo da edilidade
de Benavente,
não faço nada
nada simplesmente.


Balada de Portugalete


Um estalo como lembrete

Um condutor sem livrete

Uma moeda com verdete

Uma banda sem trompete

Um chichi na carpete

Uma mentira é um barrete

Seis mais um são sete.


Vanda


Vânia vulva vulgo Vanda

vendia ventarolas varandas e varetas

varava valentes varões avarentos

valia vinte vergões de verga vadia.


Poema de Raiva


Afinal não valias nada,
eras de papel de jornal
plástico, elástico
cordel, atacador de sapatilhas
e as maravilhas que prometias
vinham numa lata de ervilhas
barata, estupor.


A Sete Palmos de Acordar


Apáticos espectadores do absurdo
erguei-vos
à alvorada do irrisório,
passos nas lajes frias
rumores ao velório
do surdo que morre todos os dias,
morre e vai pelos seus pés
persigna-se à porta dos cafés,
resigna-se e é tudo o que pode.


Lei Íntima das Coisas

A Agostinho da Silva


Chegou um filósofo e estrelou um ovo:
o ovo o põe a galinha
a galinha é galada
gala-a o galo
o galo é de Barcelos
em Barcelos não há rainha
a rainha é das Caldas
nas Caldas da Rainha fazem loiça
a loiça usa-se para nela comermos
comemos para viver
vivemos pagamos impostos
pagá-los deixa-nos mal dispostos
quando mal dispostos vomitamos
se vomitamos temos nojo
ter nojo não é bom
o que não é bom deita-se fora
o que se deita fora é lixo
o lixo acumula-se
o que se acumula é dinheiro
o dinheiro desaparece cedo
quem cedo desaparece arrependeu-se
arrepender-se é voltar atrás
quem volta atrás perdeu alguma coisa
alguma coisa é algo indefinido
o que é indefinido ainda não é nada
se não é nada não existe
o que não existe é invisível
o que não se vê está encondido
escondido acha-se o amante
os amantes são para as ocasiões
nas ocasiões chamamos os amigos
os amigos ajudam
se ajudam são bondosos
bondosos são os galos
os galos galam galinhas
as galinhas põem ovos
os ovos podem-se estrelar
quem os estrela são os homens
todos os homens pensam
quem pensam são os filósofos.


Trega-Lenga

Para a Patrícia


Ali onde todos os dias
passo,
ali onde o passo é o mesmo
todos os dias

passo mas não sei se o dou
dou-o mas não sei se é passo,
ou se alguma perna minha
se enganou
e
se adiantou
a um qualquer encalço.


Bestiário


Antas aos saltos
azémolas amuadas
anémonas engravatadas
perus de saltos altos,

gatos pingados
ratos enfatuados
serpentes com dentes
lagartos fartos,

sete burros a zurrar
seis vacas loucas
cinco gralhas a discursar
quatro girafas roucas
três ovelhas velhas
dois macacos aos sopapos:
uma barafunda bestial.


O Corte

Sorriso
de gola e banda

olhar
de viés

gestos
de pesponto

pose debruada

voz
de machinhos

e pronto:
um retrato da cabeça ao pés.



Relicários de beijinhos trocados.
Bestiários de burrinhos de gesso.
Breviários de anjinhos lacados.
Diários de bichinhos em congresso.
Aviários de piu-pius amarelos
cócórócócós e farelos
em excesso.


Poema do Amor Pontuado


És ainda a voz do sonho ponto final
Vem lânguida vírgula
e de marfim outra vírgula dizer-me que sim ponto
e vírgula
nós dois pontos possessos e despidos vírgula
faremos jus à carne e ao fogo
travessão és ainda a voz do sonho reticências


Quatro Princípios Existenciais


Não ser pente
de careca,
cobaia
de alforreca,
alfaia
de más obras,
cão gemente
por sobras.


Afirmações Irrefutáveis

Quem teima não queima
os bigodes nos remorsos,
quem ama não lhe dói na cama
a orquestra dos ossos,
a quem quer e sonha
não lhe serve a fronha.



Lisboa, Abril de 2005/Janeiro de 2007

Terça-feira, Outubro 14, 2003

POEMAS DE CAL

[edição revista]




«Deixai que em suas mãos cresça o poema
como o som do avião no céu sem nuvens
ou no surdo verão as manhãs de domingo
Não lhe digais que é mão-de-obra a mais
que o tempo não está para a poesia.»


Ruy Belo

(Emprego e desemprego do poeta)

*


Paisagem

A pincel cresce na tela
vazia uma paisagem onde
com o seu olhar repousado
descansará o apreciador
de passagem.


*

Pelo esplendor das cigarras
a modorra espalha-se fresca
até à margem queimada da sombra.
*

Castelo de Tavira

A osga quieta na pedra da muralha
parece uma sombra a dormir
no fundo de outra sombra.
*

Dente de Leão


Ouriço – do – mar suave pela brisa
rodopiante à espera de poisar.
*

Lua Cheia

Deixaram a lua acesa,
distantemente de prata
ali, fixada e exacta,
ao alcance de uma surpresa
de Méliès, cinematográfica.

*

Retrato

Olha o traço
o traço no papel
o traço do lápis
apaga-o
antes que ele, ágil,
sejas tu.

Algarve, 1999 – Lisboa, Julho de 2002

[Julho de 2008]

Quinta-feira, Agosto 14, 2003

São idênticos o título deste blogue e o de um romance de Teolinda Gersão. A origem do primeiro não é o segundo, mas a expressão «l'arbre des mots» - conferir alguma etnografia argelina -, coincidência. A «árvore das palavras» é uma metáfora possível para blogues e outros géneros electrónicos.

Quinta-feira, Julho 10, 2003

A Árvore das Palavras é um blogue de autor onde se publica poesia, ficção e não-ficção. Pretende-se com este espaço partilhar textos com o público electrónico de língua portuguesa.

Pedro Silva Sena
*
Sobre o autor deste blogue:

Nasceu em Lisboa (1975) e está a profissionalizar-se na área da Antropologia. É editor da revista-blogue de poesia Inefável (ver em Ligações)